Na Sevilha Lusa e das Virgens andaluzas de Murillo


Uma conferência a duas vozes, em que Maria da Graça Ventura (ICIA/Centro de História da Universidade de Lisboa) e Fernando Quiles (Universidade Pablo D' Olavide) contextualizaram o nosso histórico passeio à "Sevilha Lusa". Um "cortejo estético" através das ruas de Sevilha, visitando igrejas onde são visíveis as marcas da presença portuguesa na Sevilha do Barroco. Uma epifania no Museu de Belas Artes perante o comovente encontro com a beleza andaluza das Virgens pintadas pelo pintor sevilhano Murillo em ano de comemoração do seu "400º Centenário". E nos dois dias do passeio, sentados à roda de mesas em ambiente de tertúlia, primeiro vinoliterária, provando os "bons vinhos" de Jerez de la Frontera e de San Lucar de Barrameda, como os classificou numa das suas "Cartas sem moral nenhuma" o também provador de vinhos Manuel Teixeira Gomes nas suas deambulações andaluzas, e, depois, vinofutebolística, celebrando a Restauração da Independência de Portugal com uma épica declamação da "Ode Marítima" de Álvaro de Campos, e (pasme-se) com um relato radiopatriótico do golo de Éder contra França, declamação e relato ambos por João Ventura, ao que se juntaram, em comunhão ibero-americana, as vozes do Carlos Osório, da Helena Tapadinhas, da Noélia Baptista e de Moisés Hidalgo lendo e cantando os poetas João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes, Ruy Belo, Federico García Lorca e António Machado, e a do Custódio Coelho evocando a "Arte de Ser Português", de Teixeira de Pascoais, antes de, com os corações ao alto, cantarmos em uníssono a Grândola e a Portuguesa.

I. CONFERÊNCIA INTRODUTÓRIA à ROTA "SEVILHA LUSA". PAVILHÃO de Portugal da EXPOSIÇÃO IBERO-AMERICANA, 1929

"Parar numa cidade a ver, e demorar o suficiente para ver melhor, para ver bem, é a regra" dos passeios culturais que, à maneira do passeante Manuel Teixeira Gomes, o Instituto de Cultura Ibero-Atlântica se propõe empreender, e cujo primeiro passeio aconteceu em 1 e 2 de Dezembro, em que um grupo de passeantes portimonenses, fiéis à ideia de viagem do escritor portimonense se deslocou a Sevilha em "cortejo estético" para seguir o rasto da presença portuguesa na Sevilha do Barroco.

O Consulado-Geral de Portugal em Sevilha acolheu a comitiva de passeantes portimonenses que, em data da Restauração da Independência de Portugal, foram em "cortejo estético" à descoberta da "Sevilha Lusa". O Consulado encontra-se instalado no pavilhão português da Exposição Ibero-americana, de 1929, na qual participou Portugal, representando a grandiosidade civilizacional de Portugal muito ao gosto do sentimento nacionalista em voga, na época, em ambos os Estados Ibéricos, como se pode ver na parte central do pavilhão que ostenta um salão nobre decorado com os símbolos nacionais e imperiais.

Na ocasião, a nossa associada Maria da Graça Ventura (ICIA/Centro de História da Universidade de Lisboa) e Fernando Quiles (Universidade Pablo d´Olavide) proferiram uma conferência introdutória à Rota Sevilha "Lusa Sevilha", explicando como Sevilha, situada entre as margens do Guadalquivir, desde tempos remotos se tornou ponto de encontro entre povos, culturas e religiões e os contextos que levaram o Reino de Portugal desenvolver uma estreita relação com a cidade desde a sua fundação, com a presença constante de portugueses naquela cidade cosmopolita.

Maria da Graça Ventura percorreu a história de união e desunião dos Estados Ibéricos e estabeleceu nexos entre a presença na cidade de marinheiros e comerciantes no contexto do comércio hispano-americano centralizado em Sevilha. Por sua vez, Fernando Quiles contextualizou, ilustrando através de imagens, os lugares com vínculos portugueses cujas marcas são ainda hoje visíveis e que integram a Rota "Sevilha Lusa" que percorremos durante a tarde, com início na Catedral.

II. CATEDRAL de SEVILHA

Escreve Manuel Teixeira Gomes numa das suas "Cartas sem moral nenhuma" que "ali [à catedral] conduziria [ele], caro[s] amigo[s], como se fôssemos cumprir voto de peregrinação piedosa, tão depressa nos encontrássemos em Sevilha e ali tornaríamos todos os dias, tenho-o por certo, mesmo quando houvéssemos de permanecer meses e meses na capital andaluza." Foi, por isso, ali, na Catedral, que, correspondendo ao apelo de Manuel Teixeira Gomes e conduzidos pelo historiador de arte Professor Fernando Quiles (Universidad Pablo d´Olavide), iniciámos a rota histórico-artística da "Sevilha Lusa".

A catedral maior de Espanha e a terceira do mundo foi declarada Património da Humanidade pela Unesco, em 1987, integrando o conjunto monumental constituído pelo Alcazar e pelo Arquivo das Índias. A construção foi concluída em 1506, embora nos séculos seguintes ela fosse ganhando magnitude e valor artístico ímpar.

A participação dos portugueses, como pintores, entalhadores ou patronos foi notável. Começando pelo negreiro Gonçalo Nunes de Sepúlveda que, em 1654, mandou edificar a capela de Nossa Senhora da Conceição ("Concepción Grande"), na cabeceira da nave de São Paulo. O retábulo apresenta o escudo de armas do patrono e ainda esculturas de São José, São Paulo e São António de Lisboa. Esta capela é considerada uma das mais importantes obras barrocas da catedral. Murillo pintou um quadro representando o nascimento de Nossa Senhora que, devido ao fascínio dos invasores franceses pelas obras de arte, se encontra, actualmente, no Louvre. Na sala do capítulo fomos surpreendidos por uma luminosa Imaculada Conceição, de Murillo. Ana de Paiva, portuguesa, filha do poderoso comerciante Diogo de Paiva, ofereceu uma salva de prata valiosíssima que constitui outra marca portuguesa nesta catedral.

Os portugueses em Sevilha, tal como na Hispano-América, mantinham grande devoção a Santo António. Também aqui neste templo maior se encontra uma capela que apresenta uma tela de Murillo com a visão de Santo António.

III. CAMINHANDO EM BUSCA DA SEVILHA LUSA

Escreve Manuel Teixeira Gomes numa das suas "Cartas sem moral nenhuma" que "por tanto motivo ponderável é que não [se] cans[a] de repetir [que] deveria ser Sevilha o escopo das romarias estéticas dos nossos patrícios". Respondendo ao apelo do escritor e viajante portimonenses, ponderámos, e fomos em "cortejo estético" em busca da "Sevilha Lusa", percorrendo "ruas [cujo aspecto] é, aqui, ilimitadamente variado e atraente, emaranhando-se ainda nas mesmas circunvoluções traçadas pelos moiros [...]. Ruas tortuosas e estreitas e que amiúde mais se adelgaçam, entre paredes altas de prédios cujos telhados cabecearam até se juntarem para interceptar a luz do dia..." (in Cartas sem moral nenhuma").

IV. IGREJA DE SÃO SALVADOR

Escreve Manuel Teixeira Gomes, numa outra das suas "Cartas sem moral nenhuma" que "para cortejo à catedral pululam [em Sevilha] igrejas - muitas incondicionalmente merecedoras de admiração e exigindo minucioso estudo [...] - onde sempre algum surpreendente detalhe serve de preciosa lição artística." Fomos, por isso, em busca dessas igrejas, de olhar atento às marcas portuguesas que elas guardam, visitando a Igreja de São Salvador com o seu magnífico património artístico. Erigida sobre a mesquita de Ibn Adabbas (séc. IX), é a maior de Sevilha, a seguir à catedral. Entre os 14 retábulos da igreja, destaca-se o grandioso retábulo-mor, representando a Transfiguração de Cristo, rodeado de arcanjos, executado pelo escultor português Cayetano de Acosta, entre 1770 e 1778. Surpreendentes anjos lampadários ladeiam o altar-mor.

V. CONVENTO DE SANTA ROSÁLIA

O Convento de Santa Rosália, onde, na hora da missa, as monjas capuchinhas ainda surpreendem o visitante com as sua presença etérea, apresenta um outro notável conjunto barroco tardio sevilhano. Todos os altares da igreja deste convento foram executados pelo grande entalhador português Cayetano de Acosta.

VI. AS CORES DE MURILLO NO MUSEU DE BELAS ARTES

Numa das já citadas "Cartas sem moral nenhuma" escreve Manuel Teixeira Gomes que "Sevilha é um muito completo livro de arte, luminoso em todas as suas páginas". Para essa luminosidade contribuiu a modernidade precoce de Murillo que seduziu a Europa do seu tempo com a beleza mundana das suas Virgens, ao mesmo tempo que integrava o naturalismo no Barroco para representar a realidade do seu tempo.

Foi em busca da luminosidade das suas cores que fomos ao Museu de Belas Artes e nos deixámos, também nós, seduzir pelas portentosas imagens das suas virgens, representadas no conjunto de obras que Murillo pintou para a igreja do convento dos Capuchinos de Sevilha, entre 1666 e 1670, quase todas expostas na magnífica exposição (16 pinturas) comemorativa dos 400 anos do pintor sevilhano. Entre delas, surpreendeu-nos a obra "El jubileo de la Porciúncula", pertença do Wallraf-Richartz Museum de Colónia.

VII. HOSPITAL DE LA CARIDAD

A culminar o nosso passeio cultural, visitámos a o Hospital de la Caridad, sede da Hermandad de la Santa Caridad, fundada por Miguel Mañara no século XV, para cuidar dos pobres e doentes, e enterrar os injustiçados e afogados no Guadalquivir. A igreja de uma só nave, claramente barroca, apresenta una fachada de três corpos decorada com mosaicos de azulejos com as imagens dos seus patronos (São Jorge e Santiago) e das três virtudes teológicas (Fé, Esperança e Caridade). No interior apreciámos pinturas de de Valdés Leal, o retábulo principal de Bernardo Simón de Pineda com esculturas de Pedro

Roldán, e reproduções de pinturas de Murillo que substituiriam as originais levadas pelos franceses.

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