Gabo, o maior escritor do mundo


Vi a notícia da sua morte anunciada e não me surpreendi, porque a esperava. Sabia dela pelo seu internamento hospitalar, pela alta que lhe deram a pedido do próprio, pois queria morrer em casa, deitado na sua cama; soube-a pela fragilidade da sua figura óssea, de rosto amachucado por uns óculos pesados e feios, os olhos outrora divertidos e agora definitivamente tristes, mas que ainda assim nos sorriam com a sua última sombra de desdém. Parecia um antepassado meu, o avô de quem eu tivera muito medo na infância, por me terem obrigado a beijá-lo pela primeira e última vez, estendido e frio no seu caixão, antes de ir a enterrar.

Só por isso concluí que não me seria forçoso chorá-lo. Limitei-me a procurar os seus livros nas minhas estantes, uns aqui e outros além, e a dar-me conta de que Gabriel García Márquez significava, também para mim, uma perda universal. Dei com os olhos na inevitável prateleira, a tal onde se foram alinhando dezenas de edições de Cem Anos de Solidão, capa mole, capa dura, edições em todos os formatos possíveis, não sei em quantas línguas – até que desisti de as colecionar: por um sentimento de bastança e um deixa-andar da vontade. Fora assim, alguns anos atrás. De cada vez que viajava para o estrangeiro, ia a uma boa livraria, perguntava pelo livro e pelo autor, e logo um livreiro, cortês e sorridente, fazia uma espécie de passe de dança mágica e estendia-me o novo exemplar destinado à minha colecção. Noutros casos, traziam-mos, como prenda ou por encomenda, os velhos e novos amigos que iam ao Japão e à China, a Cuba e à Polónia, à Islândia e à Turquia, à Noruega, à Dinamarca, a Israel, à Suécia, por esse mundo fora. A universalidade de uma obra literária mede-se também pela dispersão geográfica dos seus leitores. A sua eternidade mundana, dentro das nossas vidas, vem-lhe do facto de ser continuamente reeditada, em todos os moldes, desenhos e qualidades de papel, exposta nas montras ou nos lugares alfabéticos mais destacados de cada livraria desde 1967 (o ano em que veio a público pela primeira vez). Assim, era invariavelmente fácil encontrar o livro em todos os países e cidades que fui visitando, às vezes em mais do que uma edição, barata, cara ou de luxo, à escolha do freguês. Propusera-me coleccionar exemplares de Cem Anos de Solidão como se fosse um objeto íntimo, de culto pessoal, e porque sim; da mesma forma que colecionei bonecas mais ou menos etnográficas dos tais lugares por onde viajei, como ícones modestos que não precisavam de palavras nem de recorrer à estranheza das línguas para me contarem segredos acerca dos países, das pessoas e do seu mundo.

No caso do romance mais conhecido do mestre colombiano, tratava-se de algo como um santo-e-senha internacional: os livreiros dedicavam-me um milímetro do seu sorriso profissional, a atestar que aplaudiam não tanto a compra, mas a minha leitura de uma obra tão nobre, tão original, tão indiscutivelmente bela, que mais parecia uma fábula contada por um autor clássico do que na escrita febril de um iconoclasta moderno, responsável pela invenção épica do contrário das epopeias. Pode parecer um paradoxo. Seja então paradoxal. García Márquez contagiou-me pela exaltação dos simples e dos vencidos e pela miséria humana dos ricos e poderosos – e a isso chamo eu a “epopeia do avesso”.

Comprei a minha primeira edição portuguesa de Cem Anos de Solidão em Luanda (onde às vezes era possível encontrar livros proibidos ou esgotados em Portugal), nos idos de 1972, aquando da minha passagem pela guerra colonial; mas só li o romance creio que em 1980. Fi-lo por um daqueles acasos de leitura que ainda agora me levam a crer que viverei 150 anos (porque só assim lerei a outra metade da minha biblioteca que se vai arqueando ao peso tanto dos clássicos como das novidades que diariamente entram comigo casa dentro). A leitura desta obra-prima de Gabriel García Márquez foi-me tão avassaladora como um terramoto de grande intensidade. Tornou-se-me de repente nítido que eu errara até então os meus passos, ou seja, todos os caminhos por mim percorridos na minha escrita anterior. Falhara o meu imaginário do mundo. Não encontrara ainda a linguagem que me permitisse abrir uma senda só para mim no universo da criação literária. Tinha publicado pelo menos um volume de contos e um romance, mais uma floresta de textos de todos os géneros que por aí descansam com os meus votos de paz às suas almas. Decidi renunciar a uma certa educação ou aprendizagem da convenção literária (quase exclusivamente portuguesa), onde a ruralidade predominava como cânone e como ideia de literatura combativa, herdada das minhas leituras do neo-realismo.

Não foi só a linguagem rasgada e exuberantemente narrativa de Cem Anos de Solidão que infundiu em mim a descoberta de uma “revoada” (outro título do mesmo autor); foi sim a surpresa de ver que a literatura podia comportar também outros domínios do imaginário. E verificar o evidente e o aparente paralelismo de Macondo com a aldeia açoriana da minha infância. Foi-me súbita essa clarividência interior: afinal Gabriel García Márquez contava-me histórias em tudo parecidas com as da minha avó Deolinda. A avó era uma narradora perfeita, e como tal impiedosa nos seus rituais narrativos. A voz dela conhecia todas as emoções, todos os momentos de pausa, toda a técnica transida do “suspense”. Lá estavam as almas do outro mundo de regresso à Terra, em sofrimento, com um fogo a arder-lhes atrás, nas “aduelas”, até que alguém lhe pagasse uma dívida que ficara por saldar ou lhe perdoasse uma ofensa; estava o Diabo sentado sobre as pontes das ribeiras, disfarçado de Dama com Pés de Cabra: lábios pintados, sorriso travesso; à meia-noite, abertos os portões do cemitério, almas dançavam para atrair crianças e raptá-las, levando-as consigo para o outro mundo. Falava-me dos tremores de terra como castigo dos nossos pecados, dos eclipses do Sol e da Lua como aviso do fim do mundo a chegar, do fogo do Inferno e do Purgatório de que tão cruelmente sofriam as pobres alminhas no Além – e aludia a outros prodígios, tão inacreditáveis quanto sobrenaturais, e que inquietavam o meu espírito a ponto de me roubarem o sono. A minha avó descrevia-me também a ressurreição da carne, o Juízo Final presidido pelo Criador sentado num cadeirão de ouro puro, a disputa (renhida) das nossas almas entre Deus e o Cornudo. E assim concluí eu que Gabriel García Márquez, esse genial bandido colombiano, me roubara um livro, o livro que devia ter sido eu a escrever…

Escusado será dizer que li, daí em diante, creio que toda a sua obra, incluindo a dita “periodística”; e que, por influência dessa descoberta, me foi elementar fazer toda a sorte de analogias: Macondo era tão insular e tão etno-fantástico quanto as povoações mais primitivas das ilhas dos Açores; ele, Gabriel, era João e eu vice-versa. Nele e em mim, a infância constituía a única idade que se faz eterna na obra dos escritores. Nunca me acontecera dar por mim a escrever “à maneira de”. Agora sim, tinha de defender-me da tentação e do contágio, dessa doença infantil da nossa Literatura que dá pelo nome de “estilo”. Refugiei-me na poética de uma prosa que me salvou da asfixia do mestre e do território ocupado dos seus livros. Agora vinha ao caso poder falar da existência de um “realismo mágico ou fantástico português”, alternativo ao sul-americano. Seria longo, seria sobretudo polémico e talvez inútil: mas vejo daqui os nomes e as obras, desde Herculano a Peixoto e outros, passando por Saramago e por muitos mais, com que poderia erguer armas e dar praia e algum sustento à minha hipótese teórica.

A Literatura deve tudo à condição humana, e nada a quem a pretenda separada da vida, dos povos e da representação ficcional do Homem (criador de todos os mitos, incluindo o mito de si próprio). O “maior” escritor do mundo é portanto aquele que “melhor” o escreve. E esse tem nome. Chama-se Gabriel García Márquez. É-o não porque escreva melhor do que quantos até agora fizeram a educação, a diferença e a paixão das literaturas do tempo e do mundo – mas porque a sua escrita acorda o eco de todas as outras escritas e linguagens, amplifica as evidências da realidade, recorre a uma repetição de tropos e motivos herdados de todas as culturas e civilizações. Não se trata de uma nova estética baseada no mimetismo e na imitação. Estamos em presença de um imaginário inspirado pelo sopro e pelo barro criador de um demiurgo, de um virtuoso que desconhece essa mesma virtude. A sua escrita possui não apenas o poder de encantar e comover os sentidos, mas sobretudo uma vertigem narrativa, uma energia, uma superior narratividade literária. Ela tece sobre nós, e no interior das nossas cabeças, um magnetismo simbólico que se reaproxima da grande alegoria, a da caverna de Platão, tanto como de outros textos eternos que até nós trouxeram a memória, a mitologia integral dos tempos e os lugares todos deste nosso mundo.

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