Cinquenta anos de "Cem anos de solidão"


No início de Agosto de 1966, conta Gerald Martin em Gabriel García Marquez - Uma vida (Dom Quixote), García Márquez e Mercedes foram aos correios para enviar para Buenos Aires o manuscrito acabado de Cem anos de solidão. "Pareciam dois sobreviventes de uma catástrofe. O embrulho continha 490 páginas dactilografadas. O funcionário que estava ao balcão disse:`Oitenta e dois pesos`. García Márquez olhou para Mercedes a procurar o dinheiro na carteira. Tinham apenas cinquenta pesos, e só puderam enviar cerca de metade do livro: García Márquez pediu ao homem que estava do outro lado do balcão para tirar folhas como se fossem fatias de toucinho fumado, até os cinquenta pesos serem suficientes. Voltaram para casa, empenharam o aquecedor, o secador de cabelo e o liquidificador, regressaram aos correios e enviaram a segunda parte. Ao saírem dos correios, Mercedes parou e voltou-se para o marido: ´Eh, Gabo, agora só nos faltava que o livro não prestasse`".

Mas o livro prestaria, dando a conhecer ao mundo o fabuloso território literário de Macondo que Gabriel García Márquez, descobrira 16 anos antes durante a viagem que fez com a sua mãe desde Barranquilla até Aracataca, no Caribe colombiano, para vender a casa dos seus avós maternos com quem viveu até aos oito anos. Nessa viagem em que ficou "à mercê da nostalgia", como conta na sua autobiografia Viver para contá-la (Dom Quixote), partiram de noite numa embarcação através da Ciénaga Grande de Santa Marta e continuaram no dia seguinte de comboio. Quando chegaram à aldeia situada numa clareira do bananal que mal deixava ver o sol, Gabo deu-se conta que o tempo havia parado na sua memória. E foi nesse dia que, através da janela do comboio, desviou os olhos do livro de Faulkner que ia lendo e viu, pela primeira vez, o nome de Macondo num letreiro que indicava uma quinta. Logo intuiu a "ressonância poética" da palavra, de tal modo que passaria a ser o nome do universo onde habitariam todos os lugares e todos os tempos da sua obra. O seu aleph borgesiano que concentra todas as maravilhas, prodígios, milagres. Soube, então, que fora ali que, alguns anos antes, nascera para ser escritor. "Foi a tua avó que te fez descobrir que ias ser escritor? Não, foi Kafka, que, em alemão, contava as coisas da mesma maneira que a minha avó. Quando, aos 17 anos, li A metamorfose, descobri que ia ser escritor. Ao ver que Gregorio Samsa podia acordar uma manhã transformado num gigantesco escaravelho, pensei: não sabia que isto era possível. Mas se assim é, escrever interessa-me", contou Gabriel García Márquez a Plinio Apulleyo Mendoza em O aroma da goiaba (Dom Quixote). Anos mais tarde, confessaria que se não tivesse sido escritor, teria sido pianista: "tudo estava envolto na penumbra, um homem tocava piano na sombra, e os poucos clientes que havia eram casais de namorados. Nessa tarde soube que se não tivesse sido escritor, teria desejado ser o homem que tocava piano sem que ninguém pudesse ver o seu rosto, apenas para que os namorados se desejassem mais". Talvez esse secreto desejo de ser pianista, o tenha levado a escrever contos da mesma maneira que um pianista toca diariamente piano, preparando-se para um grande recital. Por isso, classificou-os como um "um género de prática". "Exercícios de piano".

Tornar-se-ia jornalista, em 1948, no El Universal de Cartagena das Índias, depois, no El Heraldo de Barranquilla e, mais, tarde, no El Espectador de Bogotá, escrevendo reportagens como quem escreve romances e romances como quem escreve reportagens. Segundo Ryszard Kapuscinski, "o seu grande mérito foi ter conseguido demonstrar que a grande reportagem é também grande literatura". Para ele, as palavras serviam para contar histórias e, com elas, transformar o mundo. Como se de um grande caleidoscópio se tratasse para mostrar a realidade multifacetada, mas ordenada em vistosas caixas coloridas, mágicas, cambiantes, multiplicadas por enganadores espelhos", explicou Ricardo Escavy Zamora no congresso Quinhentos Anos de Solidão". E essa foi, também, a impressão com que fiquei quando, ainda adolescente, li a prodigiosa e desassossegante epopeia dos Cem anos de solidão, impregnada de nihilismo que me levou numa viagem à solidão da estirpe dos Buendía que se confunde a solidão das nossas próprias estirpes condenadas aos cem anos de solidão deste mundo cada vez mais alheado de si próprio, contraditoriamente transformado numa Macondo global de onde já não poderemos escapar. É verdade que Gabriel García Márquez se tornou, entretanto, num produto de exportação colombiano. Como o café. Como Shakira. E que a sua presença hegemónica deixou na sombra várias gerações de escritores colombianos e latinoamericanos, e que, ainda hoje, a sua aura é insustentável para os jovens escritores emergentes. E que o realismo mágico se transformou num produto de contrafacção literária vendido por imitadores e aduladores e outros trapezistas da literatura franqueada. E que outros, pretendendo romper com "com a literatura latino-americana dos galos da Amazónia e das virgens que levitam", como notou Enrique Vila-Matas, confundiram Gabriel García Marquez com os seus sucedâneos, deixando-se tentar por uma espécie de parricídio nunca, contudo, concretizado. E é verdade, finalmente, que o seu último romance, Memórias das minhas putas tristes (Dom Quixote) é um livro folhetinesco, para mim, decepcionante. Mas é, ainda, mais verdade que Gabriel García Márquez nos deu O outono do patriarca, Ninguém escreve ao coronal, O amor nos tempos da cólera, alguns contos memoráveis e, se isso não chegasse, Cem anos de solidão, seguramente um dos livros que mais contribuiu para a minha formação de "leitor sem qualidades". Fez este ano 50 anos que foi publicado Cem anos de solidão. Dois números redondos que o ICIA vai celebrar num jantar com aroma da goiaba.

Posts Em Destaque
Posts Recentes
Arquivo
Procurar por tags
Siga
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square