O auto-repatriado da geringonça


Quem também participou no jantar que o ICIA organizou em 27 de maio para homenagear Manuel Teixeira Gomes foi o jornalista Norberto Lopes que através das revelações ficcionadas por Carlos Albino sobre as entrevistas que lhe haverá de fazer no futuro, deu conta do seu incómodo enquanto "Senhor da Cana Verde" numa geringonça governativa disfuncional. Para que conste nos anais da história, confundindo os historiadores da "petite histoire", partilhamos aqui as singulares revelações que, também, podem ser lidas no jornal Almalgarvia.

Da entrevista que, em 1939, fiz a Manuel Teixeira Gomes, como sabem, resultou um livro que publiquei em 1942 - “O Exilado do Bougie”. Eu era um novato. Aí, na Terra, Teixeira Gomes tinha mais 40 anos do que eu. E o Julião Quintinha, apenas 14 anos mais velho, e que continua a ter o pendor para organizar jantares literários e a teimar com o seu jornal Alma Algarvia, mesmo aqui na Sombra onde todos temos a mesma idade e tomos estamos on-line, lembrou-se agora de me lançar o desafio de voltar a entrevistar o homem que enquanto esteve no Palácio de Belém como Presidente da República se sentia como ‘o Senhor da Cana Verde’. Aceitei e mantive um longo encontro com Manuel Teixeira Gomes que, para minha surpresa, estava minuciosamente inteirado sobre como Portugal estava em 2017, em 2020, em 2035, por afora.

“Sabe? Se no meu tempo de Belém, tivesse havido uma geringonça, eu não teria renunciado e muito menos partido voluntariamente para o exílio. Tinha ficado” - garantiu-me a dado passo. Perguntei-lhe então se não tinha receio da impopularidade e das intrigas próprias do produto interno bruto português. Soltou uma enorme gargalhada e foi dizendo: “Com a geringonça de 2017 tudo é diferente da intrigalhada de 1925. Senão veja - ali a um canto, está o Bernardino Machado amuado e sem pio, sem a noção até de que estamos já em 2061. E olhe ali para o outro canto onde estão os militares. Nenhum deles quer ouvir falar de golpes de Estado, fartos de tais experiências e dos resultados trágicos, como eu sempre avisei antes de me demitir. E quanto à impopularidade, isso também era jogada palaciana de 1925. Olhe! Como sabe, nunca gostei de estar amarrado ao protocolo, fugia sempre disso. Sim, pode escrever aí que eu, em 2017, movimentar-me-ia como peixe na água, tiraria selfies fosse onde fosse e com quem fosse, iria aos locais dos sem-abrigo, falaria diretamente com quem protesta, jamais passaria um ano sem mergulhar no mar do Algarve pondo de lado aparatos egocêntricos de segurança, e tudo o mais que não fizesse de mim um Senhor da Cana Verde, mas o que sempre o que tentei ser e não consegui no meu tempo - um Presidente dos Afectos”.

Foi longo o diálogo com Manuel Teixeira Gomes. E dizendo-lhe ser minha intenção, agora em 2061, publicar excertos da conversa no jornal Alma Algarvia do Julião Quintinha, remetendo a publicação integral da entrevista para livro com o título “O Exilado do Bougie - II volume”, ele deu um estalido com os dedos: “Não! Esse título não! Ponha como título ‘g. Aqui na Sombra, vemos bem ao perto”.

E eu, Norberto Lopes assim farei.

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