Solidão


«Sou Irene Lisboa e venho do futuro para lhe dizer hoje o que não lhe poderei dizer no tempo próprio. Estou aqui para prestar “homenagem ao grande prosador e ao vivo espírito” que sempre me encanta por ser contrário ao meu, irremediavelmente melancólico. Como prova da minha admiração, mas também de muita humildade, vou oferecer-lhe este livro Solidão que, embora assinada com pseudónimo masculino, é constituído por “notas do unho de uma mulher”. Será uma edição da Seara Nova, a revista e editora dos inconformados, categoria a que ambos pertenceremos.

Neste livro, confesso-me: “Ando com vontade de chorar. Estar só cria uma melancolia profunda”. Por isso, “alegro-me com a leitura da sua prosa, perfeita e delicada companheira”. Lendo-a, “não deixo de me admirar que haja espíritos assim tão sensíveis, tão capazes de cobrir a terra de uma tão fina graça e de uma tão desprendida crítica”.

“Verdadeiras novelas é que não posso nem sei fazer”, ao contrário de si, Senhor Teixeira Gomes, que é simultaneamente espectador e actor no seu mundo e no dos outros. O senhor é sensível e terá para mim palavras de gentileza quando eu lhe oferecer este livro introspectivo. A sua carta de agradecimento, remetida de Bougie, bem longe daqui, “dar-me-á uma delicada sensação de repouso, uma ilusão de contentamento, a impressão de que o mundo poderia ser para nós um pouco mais aberto e um pouco mais generoso”.

Bem-haja, Sr Manuel Teixeira Gomes!»

Nota:

Esta intervenção resulta de um feliz acaso. Efectivamente, Irene Lisboa enviou a Manuel Teixeira Gomes um exemplar do seu livro Solidão: notas de um punho de uma mulher, editado pela Seara Nova, em 1939, com a seguinte dedicatória: “Ao sr. Manuel Teixeira Teixeira Gomes, homenagem ao grande prosador e ao vivo espírito, Irene Lisboa”. O destinatário agradeceu à autora numa carta datada de 25.03.1940 que foi publicada na revista Colóquio Letras 107, 1989, com uma introdução de Urbano Tavares Rodrigues. O livro de Irene Lisboa, com dedicatória, encontra-se no espólio da Casa Manuel Teixeira Gomes que o cedeu para a representação da oferta pessoal do livro na homenagem que o ICIA promoveu no dia 27 de maio de 2017. A carta de agradecimento foi lida por Viana de Carvalho (Armindo Santos).

O texto, destinado a uma intervenção oral, foi construído a partir da obra Solidão.

(Ler a reportagem do jantar no jornal Almalgarvia)

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