Corria a tua juventude na cidade do Porto


Urbano Rodrigues, jornalista e dramaturgo, e amigo de Teixeira Gomes, foi outra das personalidades que participou no jantar que o ICIA organizou em 27 de maio para homenagear Manuel Teixeira Gomes. Publicamos aqui a sua breve alocução ficcionada por Custódio Coelho e registada pelo jornalista Julião Quintinha, para que conste nos anais da história, confundindo os historiadores da "petite histoire". Ainda que, afinal, o que se passou neste jantar tenha sido uma efabulação, não se poderá contestar a verosimilhança dos factos, a não ser que as 44 testemunhas tenham um lapso de memória que omita da sua biografia a participação real no público ato.

«Venho de Longe enviar-te os meus sinceros parabéns por mais uma volta completa ao Rei Sol e deixar-te uma confissão, assim me alivie a alma. Sinto-me velho e fatigado. Reconheço-me entre as minhas enfermidades, físicas e morais, e de desgostos, deprimentes das força de espírito e sem capacidades para acompanhar as novíssimas correntes estéticas, que vêem de Teixeira de Pascoaes e de Fernando Pessoa, que tão bem renovaram, com subtis acrescentos da alma Lusitana aos nossos queridos Homero e Dante. Bem sei que Camões já o tinha como que introduzido, mas a nova estética tem chegado a mais gentes.

A ti meu nobre companheiro de vida te confesso um episódio da tua juventude. Ao José Pereira de Sampaio, hoje conhecido como o grande filosofo Sampaio Bruno, me desculpo e lhe digo também que as minhas preces concorrem para a sua iluminação. Corria a tua juventude na cidade do Porto, e tu quase diariamente ias à pastelaria do pai do Sampaio comer aqueles bolos folhados que tanto gostavas e que te lembravam os Algarves, como tu dizias. Dessas visitas rotineiras bebeste a instrução que te levou o espírito para uma intelectualidade sublime, pura e natural que depois te levou por caminhos de mestria das artes, da literatura e da diplomacia. Incorporaste na tua vida prática a natureza da alma Portuguesa. Que boas influências te acompanharam o caminho.

Mas também foi nessa altura, por bem, eu acho que por mal, o nosso saudoso Afonso Costa te despertou para a política. Foi ele que plantou em ti a semente, que a regou e que depois foi o primeiro a sugerir o teu nome para o cargo mais alto da Nação. O Sampaio, que te conhecia bem sempre se opôs a esse encargo e dizia-nos que virias a perder a alegria da vida quando conhecesses de perto os pobres da política Lusitana, e tinha razão.

Confesso-te isto hoje, no dia do teu aniversário, para que melhor julgues o nosso querido confrade Sampaio. Ele quis tanto proteger-te.

Esta foi a razão que levou ao rompimento das relações entre o Sampaio e o Afonso da Costa. Por ti.

Hás-de um dia lembrar-te de quem sempre te quis bem, e se puderes, porque não o mereço, de encontrar um lugar para mim na tua imaginação».

Ler a reportagem do jantar no jornal Almalgarvia.

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