As visitas do Presidente

Entre as figuras de alto gabarito que participaram no jantar que o ICIA organizou em 27 de maio para homenagear Manuel Teixeira Gomes encontrava-se o seu secretário Viana da Carvalho que, a dada altura, interveio com a alocução ficcionada por Armindo Santos e registada pelo jornalista Julião Quintinha, que aqui reproduzimos para que conste nos anais da história, confundindo os historiadores da "petite histoire". Ainda que, afinal, o que se passou neste jantar tenha sido uma efabulação, não se poderá contestar a verosimilhança dos factos, a não ser que as 44 testemunhas tenham um lapso de memória que omita da sua biografia a participação real no público ato.

(Foto: Videograma do filme ZEUS – As Viagens de Teixeira Gomes, (2016), de Paulo Filipe Monteiro.

«Porque seja quem for, colocado num lugar para o qual não foi preparado, se sentir medo, tem que o poder dizer, não?

Eu, Viana de Carvalho - por desígnio dos deuses -, feito secretário do Presidente Manuel Teixeira Gomes, confesso que cheguei a ter medo! Muito medo!... O Presidente manifestou, por obras, ser um herói… E os heróis estão sujeitos a morrer de morte violenta. Ora, eu, Viana de Carvalho, funcionário público como deus manda, passei a acompanhar o Presidente, um passo atrás, um passo à frente, conforme as circunstâncias, portanto… Claro que os medos acabaram por não se justificar, como bem sabem, pois aconteceu que, antes de tempo, o Presidente deixou o lugar e foi p’ra longe… Daí, começou um outro fadário para Viana de Carvalho: passar na máquina de escrever as cartas que o Presidente, lá do seu desterro, mandava para que remetesse a destinatários certos, que eram mais que muitos.

Aqui, e agora, que estamos revisitando o passado, quero aproveitar a assembleia de personalidades tão qualificadas, aqui reunidas, para desobrigar o Presidente dos remorsos que o atazanam e, por carta, me fez chegar:

“Não julgue que me não pungem remorsos por tão continuado abuso; eu até o vejo em pesadelos, coberto de suores, desfalecido, conseguindo a muito custo executar no teclado da máquina as minhas sonatas epistolares”.

Vamos a factos: Manuel Teixeira Gomes, em 5 de Outubro de 1923, assumiu a presidência como o 7.º locatário do Palácio de Belém. Tínhamos entrado, no regime republicano, havia 13 anos! Somos bons a registar records… A Europa ainda não tinha recuperado da I Guerra Mundial. Viviam-se tempos de incerteza e instabilidade. Os militares eram protagonistas… Tinham tomado o gosto e mantê-los nos quartéis só mais tarde… Logo nos primeiros dias do seu mandato o Presidente visitou quartéis… A Artilharia 3 e Lanceiros 2, em Lisboa. Na altura não havia Croácia visitável e Luxemburgo não tinha tantos portugueses assim e também não se podia dizer que éramos os melhores… Isso calhou a outro fazer, mais tarde! Mas as visitas foram logo interrompidas porque o primeiro-ministro de então, António Maria da Silva, apresentou pedido de demissão, ainda não tinha passado um mês da tomada de posse do Presidente!

O Presidente não encontrou atempadamente como preencher o lugar, nas consultas da praxe para o efeito, pelo que chamou Afonso Costa, que estava em Paris, para se encarregar do lugar. No dia 10, depois de démarches infrutíferas, Afonso Costa desistiu da tarefa. Nesse dia o Presidente desafia Catanho de Meneses a fazer o que não fez Afonso Costa; mas, também este, não conseguiu o intento. Só dia 15 o Presidente nomeia Ginestal Machado que, então, forma governo. Estará no poder menos de um mês. Demite-se em 13 de Dezembro.

Entretanto, o Presidente manteve o seu desígnio de distribuir abraços, ornar com a sua presença as inaugurações, as festas. Presidirá ao aniversário da Associação de Socorros Mútuos dos

Empregados do Comércio e Indústria, elogiando muito a instituição por não pedir auxílio ao governo, antes solicitar fiscalização. Assiste aos jogos de hóquei e futebol; e aos concursos de tiro, dos militares de Pedrouços, entregando os troféus aos vencedores. No 1.º de Dezembro, coloca uma coroa de flores no Monumento à Restauração. No mesmo dia inaugura o Congresso das Associações Comerciais e Industriais. Inaugurará uma exposição, na Sociedade Nacional de Belas Artes, de trabalhos de antigos alunos da Casa Pia.

Os militares, então, no dia 10 de Dezembro do contratorpedeiro Douro, do Tejo, (o rio que é maior do que o rio da minha aldeia…), fazem alguns disparos numa tentativa de intimidar o ocupante do Palácio de Belém. O Governo refugiara-se no Quartel de Metralhadoras de Campolide e daí informara o Presidente da ocorrência. Informam que as tropas leais comunicaram que uma centena de marinheiros se encontrava no Quartel de Alcântara a preparar um assalto ao Palácio de Belém. O que faz o Presidente?

- Viana de Carvalho! Vamos!

- Vamos! Sr. Presidente.

O que teria passado pela cabeça do Presidente, congeminava com os meus botões. Surpreendentemente dirigimo-nos para o Quartel de Alcântara; aí chegados dou o passo à frente que me competia e bato ao portão. O guarda do piquete, estremunhado, abre a meia-porta e lá vai dizendo que ali se dorme porque é a hora para tal. Normalidade absoluta.

O chefe do Ministério, Ginestal Machado, lá vai dizendo que o Presidente deveria dissolver o Parlamento, para melhor poder governar. O Presidente recusou tal e Ginestal Machado pede a demissão.

De novo às voltas com as voltas da praxe para formar governo. Em 18, finalmente, dá posse a Álvaro de Castro. No início de Fevereiro, vai visitar o Porto numa visita oficial. Apoteótica recepção na Bolsa. Récita no Teatro S. João (não com fado ou folclore…). Visita o Museu e a Biblioteca Municipais. Estabelecimentos fabris. Faculdade de Letras… E unidades Militares.

No regresso, em Lisboa, tem uma grande recepção, no Rossio. Nesse dia inaugura o 2.º Congresso da Imprensa Latina. Aí estará acompanhado de António Sérgio, ministro da Instrução. Augusto de Castro, director do DN, será proclamado presidente. Visita um lactário porque este comemora o 10.º aniversário e é um exemplo de bom funcionamento.

Os jornais noticiam que o BNU, banco emissor das colónias, entrou em crise! (Já ouvimos falar de crise na banca, não?). E também é notícia: derrocadas em Lisboa. Organizam-se peditórios para auxiliar as vítimas. Mas, nem só de coisas más são feitos os jornais. Anunciam um raid Lisboa-Macau, no avião “Pátria”; para glória de Portugal… O povo irá ser mantido ao corrente da viagem e suas peripécias… pelos jornais! Anuncia-se o Congresso do PRP, para o dia 25 de Abril, no Porto; um partido dividido até aos ossos… (coisa nunca vista). O Presidente faz uma visita à Câmara Municipal de Lisboa para inaugurar uma exposição de flores… E vai aos Armazéns Grandela para inaugurar, ali, uma exposição de lavores de jovens internas em casas de beneficência. No acto a Banda da Guarda Republicana, tocou.

Visita oficialmente Setúbal. Recepção, com banquete, na Câmara Municipal, a que se associa o poder local. Visita associações profissionais, corporações de beneficência, o Club Naval. E, passa pelo Barreiro e por Palmela. No final: uma grande festa. Assiste ao encerramento dos trabalhos, na Escola Militar, assistindo a exercícios de ginástica, tiro e corrida de cavalos. Está presente no centenário de Camilo Castelo Branco, que decorre no Teatro Nacional. Pelos jornais são veiculadas tricas sobre a preparação de um golpe militar. Será que sim? No entretanto visita Leiria para lançamento da primeira pedra de um monumento aos Mortos da Grande Guerra, que ali se vai construir.

Mas, de facto, no dia 18 de Abril, há um movimento de militares, em Lisboa. O Governo e o Presidente acantonam-se no Quartel do Carmo. O ministro da guerra consegue que um representante dos revoltosos chegue à fala com o Presidente. Este, Sinel de Cordes, exige a demissão do governo e pretende seja nomeado Filomeno da Câmara, para a chefia do governo. O primeiro-ministro Vitorino Magalhães acha que é inútil resistir, no que é secundado pelos membros do governo.

Porém, o Presidente não tem essa opinião e manda prender Sinel de Cordes e os outros revoltosos.

Serão dissolvidas as unidades que participaram no golpe. Encerrados os jornais que se mostraram favoráveis aos revoltosos. Serão tratados os feridos, que são muitos, e enterrados os mortos. No dia, o Presidente, visitou as vítimas, no Hospital S. José.

São mais do que muitos os casos. O Presidente cansou-se e pede renúncia do cargo ao Congresso. Mas, por isto ou por aquilo, em diálogo, acaba de retirar o pedido.

Aconteceu, na Rússia, em 21 de Janeiro, a morte de Lenine. Subiu ao poder dos bolcheviques Stalin. Aqui ao lado, em Espanha, Primo Rivera impõe, com anuência de Afonso XIII, um regime totalitário. Mussolini, em Itália, com os camisas roxas, impõe o fascismo. O mundo em nossa volta está em conflito.

Ficamos a saber, pelos jornais, que a Justiça irá pôr os revoltosos de 18 de Abril em liberdade.

Ter medo é razoável…

No dia 19 de Julho outro levantamento militar: do cruzador Vasco da Gama é bombardeada a zona da Ajuda. Comanda a revolta Mendes Cabeçadas. Os militares conspiram. A pressão sobre as instituições políticas, estava na ordem do dia e era permanente.

O general Gomes da Costa, numa visita ao Ministro da Guerra, dirigindo a palavra ao Presidente diz: “Se V. Exa. vê que nesse lugar pode fazer alguma coisa para prestígio do Exército e para bem de todos nós que nele servimos, tem-nos ao seu dispor; se não, veremos”.

O Presidente reage: - lamento ouvir a impertinência de uma reclamação bolchevique vinda de um General».

E eu, Viana de Carvalho, gostava de perguntar: sr. Presidente, na lenga-lenga da reclamação apresentada pelo General não estaria já a alusão premonitória à formação da Geringonça?

Ler a reportagem do jantar literário no jornal Almalgarvia.

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