Um jantar singular


Reproduzimos aqui a reportagem publicada no jornal Almalgarvia, uma recriação contemporânea e imaginária do jornal republicano Alma Algarvia, editado em Silves, entre 1911 e 1917, distribuído no final do jantar literário que o ICIA organizou em 27 de maio para celebrar o 157º aniversário de Manuel Teixeira Gomes. Como se perceberá, as personalidades republicanas (jornalistas, escritores e fotógrafos) referenciadas foram representadas por associados do ICIA. Similitude e alguma verosimilhança, eis a ficção eis a ficção que em que todos fomos personagens.

Os associados dos ICIA tomaram a iniciativa de se reunirem em fraterno convívio num jantar que, esta noite, se efectuou na Taberna de Portimão para prestar homenagem ao nosso muito querido amigo e correligionário Manuel Teixeira Gomes, aproveitando a sua curta estada na sua terra natal, onde veio passar o seu aniversário e recuperar forças depois de meses de árduo trabalho em Londres em prol da dignificação da nossa nova pátria republicana perante as autoridades inglesas e o seu exigente público.

Foi um jantar íntimo e singular - onde se deram factos extraordinários, mas verosímeis -, e que a pedido do homenageado não foi noticiado no nosso jornal, tendo, mesmo assim, comparecido mais de 40 associados e recebidas dezenas de telegramas, alguns dos quais publicados neste jornal. E sabedores que os associados do ICIA lhe iam prestar o seu grande preito de admiração, logo se associaram à homenagem, a ela comparecendo, não apenas homens e mulheres de prestígio nas letras e no jornalismo da região, do país e da política local que já haviam participado na homenagem de 1912, como Julião Quintinha, Marques da Luz (Marcos Algarve), Ernesto Cabrita, Fonseca Dias, como, também, outros que tendo conhecido ou convivido com Manuel Teixeira Gomes em épocas distintas, como, Urbano Rodrigues Viana de Carvalho, Norberto Lopes, Maria Veleda, Irene Lisboa e M. e Mme. Berg, quiseram, também, prestar-lhe preito de admiração. Mais inaudito, ainda, foi a presença de algumas personagens da obra de Manuel Teixeira Gomes, como Maria Freire, João dos Castelos, uma misteriosa princesa russa e uma cigana espanhola.

Decorreu imponentíssima a manifestação de simpatia que o ICIA lhe preparou, revestindo o banquete dado em sua honra um brilho raro e eloquentíssimo que impressionou todos que a ele assistiram.

Perto das 19h30, ainda sob o luminoso sol algarvio, começaram a chegar os convivas, cabendo ao nosso diretor Julião Quintinha dar as boas vindas a Manuel Teixeira Gomes e aos seus amigos e correligionários que, logo ali, foram convenientemente alastrados com suculentas rodas de enchidos de Monchique e refrescados com um aromático rosé do Algarve, enquanto iam escutando a voz do grande cantor lírico portimonense Alfredo Mascarenhas ecoando numa grafonola.

De entre os presentes, adiantou-se uma criatura de lenda, figura de Brunehilde, que todos julgaram evocada dos “Nibelungen” e que, depois, ao jantar, haveria de se revelar a Manuel Teixeira Gomes como a misteriosa mulher, talvez uma princesa russa que um dia ele haveria de conhecer a bordo do paquete russo Tchikachoff, em viagem entre Esmirna e Constantinopla. Também não passou desapercebida uma cigana, airosa, grácil, flexível que, para surpresa geral, e sem mais preâmbulos, tomou a mão de Teixeira Gomes e leu-lhe a sina. O ambiente teatral que se ia vivendo na rua, onde não faltavam adereços da época da 1ª República, como uma grafonola, uma bicicleta e um posto de engraxador, proporcionou, também, o aparecimento Maria Freire.

Após este momento de são convívio, todos passaram au restaurant, brilhantemente disposto com um belo serviço de loiça e cristais e quarenta e quatro talheres de prata.

Começou por usar da palavra o anfitrião Julião Quintinha que elogiou as elevadas qualidades do homenageado, destacando a sua rara capacidade diplomática que tão exigente prova de valor tem dado em Londres como ministro plenipotenciário de Portugal, os seus dotes literários que o elevam já à categoria de um dos nossos mais cintilantes e vernáculos prosadores, com direito a foros de escritor cheio de observação, graça, conceituoso e de fundo, e que, no futuro, a sua passagem breve pela política que o elevaria a Presidente da Republica, a sua vocação de que desde cedo o conduziria em viagens de negócios pelos países frios do Norte e, depois, em viagens de ócio através do Sul luminoso, numa espécie de vida sem fronteiras que o levaria, vencido da vida política, a um exílio voluntário, solitário numa terra estrangeira, como uma gaivota atraída pelo brilho das paisagens do Sul, sem nada querer possuir no ocaso da sua vida a não ser um pequeno quarto num hotel em Bougie, Argélia, onde viveria a experiência mais luminosa da sua vida.

Levantou-se em seguida a Presidente da Câmara de Portimão, Isilda Varges Gomes, que enalteceu a ação cívica e empresarial de José Libânio Gomes, pai do homenageado, que promoveu os frutos secos do Algarve nas exposições universais de Antuérpia, Londres e Paris, onde foi medalhado. Lembrou, também, que José Libânio Gomes criou a Sociedade Exportadora de Frutos Secos que foi decisiva para experiência cosmopolita do jovem Manuel Teixeira Gomes no norte da Europa. Evocou, finalmente, a ação política do pai de Manuel Teixeira Gomes enquanto vereador e vice-presidente da Câmara de Portimão ainda no tempo da monarquia, continuada pelo seu filho no mais cargo da nação e, também, localmente, por seu neto António Pacheco Teixeira Gomes que foi Presidente da edilidade portimonense nos anos 1934 e 1935, sentindo-se honrada por actualmente desempenhar o cargo que, no passado, teve tão ilustres figuras. Entre os presentes encontravam-se ainda dois antigos administradores do concelho, Fonseca Dias e Marcos Algarve que foram saudados pela actual Presidente.

Alexandra Gonçalves, Directora Regional da Cultura, interveio evocando o papel do homenageado no apoio à Seara Nova, importante editora para cuja sustentabilidade ele contribuiu. Irene Lisboa, pedagoga e escritora, surpreendeu Teixeira Gomes com o exemplar do livro Solidão, editado pela Seara Nova que havia enviado, em 1939, para Bougie. Maria Veleda agradeceu o apoio de Manuel Teixeira Gomes à Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, criada em 1909 pela médica Adelaide Cabete e pela escritora Ana de Castro Osório, organização que ela própria integraria depois e da qual seria dirigente. Urbano Rodrigues enalteceu o elevado sentido ético e moral do homenageado, augurando-lhe um futuro grandioso como alto magistrado da república.

Norberto Lopes revelou as entrevistas que lhe fez, evidenciando o seu incómodo enquanto “Senhor da Cana Verde” numa geringonça governativa disfuncional. Viana de Carvalho, secretário do homenageado, levantou-se e relembrou a perturbação do Presidente perante a pressão constante dos militares para dissolver o parlamento e a sua constante preocupação com os trabalhadores e os oprimidos.

Emocionado com tantos encómios, Teixeira Gomes sentiu um ligeiro desfalecimento, sendo de imediato assistido pelo Dr. Ernesto Cabrita, médico da família.

Marcos Algarve que nos tem deliciado com histórias da nossa terra, prontamente animou os convivas e devolveu a alegria a Teixeira Gomes contando mais uma aventura do Teófilo na Praia da Rocha.

Por fim, Manuel Teixeira Gomes, visivelmente comovido, agradeceu, primeiro com um longo olhar, que abrangeu todos os presentes, e depois com as seguintes palavras:

É para mim uma honra estar presente perante vós, gente honrada e ilustre desta terra algarvia que trago sempre no meu coração. Ansiava há muito por esta oportunidade de rever o sol radiante do Algarve – privilégio inexistente em Inglaterra – e as “praias de areia finíssima e doirada, fechadas e semeadas de rochedos multicolores” que tantas recordações me trouxeram da minha infância e juventude. Na verdade, não via a hora de regressar à minha terra natal e confraternizar com velhos amigos e conhecidos à volta de uma mesa, disfrutando das delícias gastronómicas da nossa cozinha. É, pois, tempo de festejar depois da vitória diplomática alcançada lá fora. Brindemos, pois então!

As palavras de Manuel Teixeira Gomes foram cordialmente acolhidas pelos ouvintes que lhe dispensaram uma calorosa e prolongada ovação.

Depois, num jeito simples e amigo, e mais descontraído, pediu que lhe trouxessem um cesto de fruta, Manuel Teixeira Gomes disse:

Uma coisa faço eu agora, impunemente, que há quase meio século me era vedada: comer fruta verde. E como ela é variada, abundante e saborosa, aqui no Algarve! Estes últimos dias, tenho-me refastelado a cada almoço, numa pirâmide colossal de figos lampos, enfeitada de cerejas e albricoques, de que eu havia perdido completamente o gosto, já resignado a limitar a apreciação dessas frutas aos quadros de ”natureza morta” que observo nos museus londrinos. Sei que no Algarve é tempo desta fruta deliciosa, por isso pedi ao Viana de Carvalho que trouxesse este cesto de figos, albricoques e cerejas para que não se limitem à condição de espectadores da minha felicidade. Desejo-lhes e a todos e aos vossos, a felicidade e a tranquilidade compatíveis com os duríssimos tempos que vamos atravessando, e em nada correspondem ao que se esperava depois da guerra fria. A fraternidade das gentes e das Nações vem ainda longe, e enquanto se não pegam outra vez, arreganham os dentes com redobrada fereza, embora à surdina…

Durante as muitas horas que durou este jantar literário, com uma ementa inspirada em referências gastronómicas da vida e obra de Teixeira Gomes, abrilhantado por interpretações por dois jovens músicos, em contrabaixo e guitarra portuguesa), bem regado com os Vinhos do Algarve e rematado com café e uns copinhos da famosa medronheira serrana de Monchique […] a que todos prestaram as honras devidas, momentos houve de enternecedora sinceridade e espontaneidade na homenagem prestada a um dos maiores diplomatas e escritores portugueses e, também, a um homem de direito, bom, generoso, idealista dos mais puros e de uma tão impecável e nobre linha vertical que não constitui só orgulho para ele e para seus familiares, mas também para todos portimonenses, para os seus amigos e para os admiradores.

Foi com a alegria do dever cumprido que, como descrito, se prestou homenagem ao talento e ao carácter, dois atributos que exornam a alta personalidade de Manuel Teixeira Gomes, presente no nosso coração em todos os momentos.”

In ALMALGARVIA, 27 de maio 2017

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