Uma vida sem fronteiras


Manuel Teixeira Gomes é uma epifania na memória colectiva dos portimonenses. Cidadão ética e politicamente empenhado, humanista esclarecido, amava a escrita indolente e refinada a partir da observação, das referências culturais e, sobretudo, de uma insinuante sensualidade. Nascido em Portimão há precisamente 156 anos, numa casa com janela para o rio Arade, cedo apreendeu a beleza do azul do mar do Algarve. O movimento dos veleiros e dos vapores que demandavam o porto de Portimão era um permanente desafio à viagem que o levaria a percorrer o Mediterrâneo, de Marrocos à Turquia. A atmosfera muçulmana, que o envolvia no Algarve e na Andaluzia, seduziu-o e fê-lo viajante nómada em terras da moirama.

Viajava devagar, ora como homem de negócios, “na região compreendida pelo norte da França, a Bélgica e a Holanda, onde vendia os produtos do Algarve”, ora como viajante libertino, recortando com o olhar a costa mediterrânica. Viagens de negócios para os países frios e sombrios do Norte, viagens de ócio para o Sul luminoso – Andaluzia, Catalunha, Norte de África, Itália, Grécia, Ásia Menor, adentrando-se, depois, na terra, escapando às multidões, entrando num museu esquecido, descobrindo o mundo inteiro num quadro, numa igreja arruinada.

Em 17 de Dezembro de 1925, renunciou à Presidência, sem que, deliberadamente, renunciasse ao seu país. Viajante nómada, recuperou a liberdade que perdera nos últimos 15 anos ao serviço da República. Revisitou todos os lugares que conhecera até 1910. A sua terra de eleição era Florença, mas a ditadura fascista de Mussolini criara um ambiente hostil à pura e descontraída fruição da arte. Optou por ficar no Magrebe, repartindo-se entre a Argélia e a Tunísia donde facilmente ia a Paris, cidade emblemática da cultura que o moldara. Como Nietzsche, “professava” uma espécie de “fé no Sul”, preferindo a margem magrebina à europeia.

Adoeceu em Bougie, cidade na costa argelina, que lhe lembrava Sintra pelo recorte das montanhas da Cabília e Portimão, pelo mar fronteiro. Em 5 de Setembro de 1931, instalou-se no Hotel L’ Étoile e o quarto nº 13 foi a sua casa durante uma década. Morreu, acarinhado pelo casal Berg, em 18 de Outubro de 1941, sem nunca mais ter visto a família.

Viveu uma vida sem fronteiras que o levou a um exílio voluntário, solitário numa terra estrangeira, como uma gaivota atraída pelo brilho das paisagens do Sul, sem nada querer possuir no ocaso da sua vida a não ser um pequeno quarto num hotel em Bejaia, Argélia, onde viveria a experiência mais luminosa da sua vida.

Antes, desde os lugares por onde passava, escrevia cartas, muitas cartas, vagarosamente, ao correr da pena, como se a escrita fosse o prolongamento da viagem. Dominado pela "febre epistolar", escreveu milhares de cartas, correspondendo-se regularmente com mais de setenta pessoas, quase todas ligadas ao mundo das artes e das letras. Epistolografia de viagens. Literatura de viagens, portanto. E da melhor da nossa literatura. Ler, hoje, as suas cartas é empreender uma viagem pelas cidades do Mediterrâneo. E com ele deambularmos por essas passagens secretas que são as suas cartas, verdadeiros labirintos de tinta através dos quais vislumbramos cidades e paisagens, ambientes e tipos humanos e escutamos a formidável ressonância das pequenas coisas que se nos revelam dissimuladas.

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