Manuel Teixeira Gomes, meu contemporâneo


Não só enquanto leitor, também nas ocasiões em que no meu ofício de criador teatral tenho frequentado a obra de Manuel Teixeira Gomes (MTG), faço-o por razão de deleite mas, sobretudo, com o propósito de procurar nela, ou através dela, um modo esclarecido de olhar o mundo em que identifico aspectos com os quais intelectual, espiritual e artisticamente me revejo, intuindo que por via deles poderei alcançar o propósito de dizer o que quero dizer com palavras justamente medidas, compostas num discurso de elevação quanto ao alcance e clareza do significado delas e na sua denodada elaboração estética e ética.

Por esta razão é que sinto MTG meu contemporâneo, e não contamino de aspas ou itálicos a asserção, antes a assumo por inteiro e fora do universo das questões domésticas, ou comezinhas, sejam elas dele ou minhas.

Identifico na escrita de MTG uma imanente grandeza de espírito que convoca para a elaboração artística profunda, crítica, elegante, comedida, qual nos induz, em justa medida, a, na aventura da criação cénica, visualizarmos as personagens em quadros, telas onde elas agem e respiram na sua justa dimensão dramática, límpidas e claras e autênticas, sem excessos ou ligeirezas; mesmo quando a feição popular ou a ironia as convocam para o diálogo, seja ele mais descabelado ou mais elevado.

Neste particular – o do diálogo elevado -, guardo na memória a preciosidade de uma cena entre MTG e Columbano que trabalhei, e passo a relatar.

Em 2009, pedi ao Alexandre Honrado que escrevesse para a ACTA um texto sobre o MTG que levámos à cena em 2010: Um homem singular. Empenhámo-nos em horas de acesa conversa para contrariar o folclore habitual quando se leva à cena uma obra de MTG ou sobre ele. Felizmente, o Alexandre Honrado partilha comigo a mesma visão. A partir das Cartas a Columbano construiu ele um diálogo primoroso, vivo, aceso, com fino traço de ironia e contemporaneidade. As palavras diziam tudo, não havia necessidade de as ilustrar com grande gestualidade ou movimentos.

Ora, o actor intérprete de Columbano era (é) pessoa com características psico-físicas marcadamente excessivas, estruturalmente muito agitado, tem dificuldades de comedimento tanto na elocução como na gestualidade; e eu queria que aquela cena fosse quase, quase um quadro de Velázquez, com a agitação no interior e não no exterior das personagens.

Abreviando razões. Tive de recorrer a uma dessas técnicas, a meu ver sem dúvida de resultado eficaz, a que os encenadores por vezes submetem os actores; quais técnicas, vistas de fora, recebem em geral a designação entre nós vã, de “prepotência”: amarrei-lhe ambos os pés a uma corda para que os seus passos não excedessem no espaço cénico a dimensão pretendida na sua relação com o desenho de luz; ambos os pulsos a um elástico para contenção da gestualidade e, munido de um cronómetro, marquei-lhe o tempo de cada frase; depois foi marcar o ritmo e, dentro deste, a inflecção justa de cada palavra, sobretudo com a preocupação de que as vogais não fossem obliteradas na demanda da ironia e que os silêncios da elaboração psicológica (por vezes micro pausas entre uma e outra palavra ou dentro da própria palavra) fossem justos dentro da elaboração artística e estética definida. Foi para ambos um frutuoso tormento!

Pensar-se-á que este actor ficou meu inimigo? Não! É meu amigo, e um artista competente. No ano seguinte, quando fomos trabalhar na Alemanha, convoquei-o para o nosso elenco e ele fez lá um trabalho notável – um Ariel Shakespeareano que voava em A Tempestade!; e, no momento em que escrevo estas linhas, está ele aboletado em minha casa a gozar o descanso de um excelente e fisicamente exigente espectáculo que fez no Lethes no fim de semana passado.

Julgo ter sido claro: MTG interessa-me não pelo “folclore” que lhe possa ser afecto, antes pela arquitectura íntima e elaborada do seu discurso; e também pela coragem do posicionamento do homem político, tudo isto ao mesmo tempo, sem distinção, que tudo isto é a mesma coisa, faz parte do mesmo lastro - e projectadas no meu tempo que, de certo modo, é também o dele.

Pessoalmente, não valorizo na obra de MTG – como direi?!- o repositório de episódios mais ou menos folclóricos a que podemos, ou não, achar piada pela descrição e narrativa exemplares; antes a elaboração em que incorre na apreciação e desenlace deles é que me interessa porque é aí que identifico o meu vínculo de contemporaneidade com MTG.

E quem escrutinar o meu trabalho no Teatro, decerto reconhecerá que não sou propenso ao folclore ou à escatologia; que também não à insubstancialidade e ao olhar acrítico; antes à convocação de uma consciência que, em verdade, nem sempre domino em razão plena, mas que me seduz e que sinto me engrandece procurá-la, ao mesmo tempo que me perturba. Por um lado, no meu discurso cénico a historiografia é-me adversa; por outro lado, ela é-me referência fundamental para a demanda criadora.

Em MTG identifico, com uma nitidez perturbante, porque contraditória, a asserção de Nietzsche: a libertação do pensamento pela multiplicidade, destrói hierarquias platónicas para finalmente tomar consciência que Deus morreu.

- Que pena tenho, amigo Manuel, de não o ter aqui à mão para discretearmos acerca desta matéria!

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