Repensar o ideário iluminista


“Par une societé de gens de lettres”. Esta frase encontra-se estampada no frontispício da primeira edição da “Enciclopédie” publicada em Paris entre 1751 e 1772 e constituída por vinte e oito volumes, onze deles compostos por imagens. Nesta obra encontravam-se sistematizadas as grandes áreas do conhecimento humano naquela época destinadas a esclarecer os espíritos e dotar a humanidade das luzes necessárias ao progresso e à felicidade. Era o culminar das ideias iluministas do século XVIII difundidas por filósofos, escritores e cientistas europeus e norte-americanos. A “Enciclopédie” tornava-se assim na bíblia do pensamento iluminista, cujas ideias já circulavam em cafés, clubes, salões e academias onde homens – e algumas mulheres – discutiam e refletiam sobre um futuro mais otimista para todos. D’Alambert, Diderot, Condorcet, Benjamin Franklin eram homens confiantes numa humanidade instruída e racional. Ideias como a liberdade, a justiça, a instrução e a igualdade eram defendidas nestes círculos iluministas.

Vem a este propósito a leitura reflexiva do romance “Homens Bons” de Arturo Pérez-Reverte, publicado em setembro do ano passado. No essencial, e para abreviar, o enredo centra-se na missão de dois membros da Real Academia Espanhola, o bibliotecário Don Hermógenes Molina e o almirante Don Pedro Zárate, em adquirirem em Paris a “Enciclopédie” para a biblioteca da prestigiada instituição espanhola. Ao longo do romance, desenvolvem-se várias peripécias contadas com a maestria da escrita de Pérez-Reverte, sempre fiel aos pormenores históricos e à complexidade das personagens descritas.

Em “Homens Bons”, Pérez-Reverte apresenta-nos dois mundos em choque, dois modelos civilizacionais que, à semelhança de outras obras suas situadas na viragem para o seculo XIX – “O Assédio”, “O Hussardo”,” Um Dia de Cólera” - se entrecruzam em diálogos e discussões e, por vezes, sob formas mais violentas. A ideia de dotar a Espanha, de espírito tacanho e tradicionalista na sua essência, com as novas ideias iluministas presentes na “Enciclopédie” esbarra com resistências muito fortes vindas precisamente doutros membros da Real Academia Espanhola – Higuerela e Sánchez Terrón – que, por princípios e oportunismos, tudo fazem para que a dita obra não entre em Espanha contratando um bandido, Pascual Raposo, personagem dura e desprovida de escrúpulos – à semelhança da figura do comissário Rogelio Tizón Penasco, no “Assédio - que irá criar uma série de obstáculos à missão de Don Hermógenes e de Don Pedro.

“Homens Bons” é uma obra que, lida, oferece espaço para uma reflexão muito oportuna sobre o que se passa hoje um pouco por todo o lado. A crença no progresso e na felicidade da humanidade, tão defendida pelos iluministas, é hoje cada vez mais posta em causa devido a certa condicionantes conjunturais de natureza ideológica, económica e política. A noção de democracia moderna, herdeira das ideias iluministas e dos sistemas constitucionais iniciados com a implantação dos Estados Unidos da América e com a Revolução Francesa, encontra-se hoje seriamente abalada. À dificuldade de implementação dos sistemas democráticos em determinada áreas geográficas e culturais do planeta junta-se a perda de sentido cívico de muitos eleitores do mundo ocidental, fruto de problemas económicos e financeiros e de inépcia governativa e corrupção generalizada. A individualização da sociedade, a falta de respeito pela causa pública – a res publica - e a cultura do imediato tornam hoje a maioria dos cidadãos dos países democráticos em meros observadores do que se passa à sua volta. Nada lhes interessa e nada lhes diz respeito. Apenas aquilo que entretém e descontrai é bem vindo. É a civilização do espetáculo, no sentido dado por Vargas Llosa, quando aponta para as inevitáveis consequências: “a banalização da cultura, a generalização da frivolidade e, no campo da informação […], o jornalismo irresponsável da bisbilhotice e do escândalo”.

Importa pois, com alguma urgência, repensar o sentido das velhas ideias iluministas, pensar em criar condições para que nunca deixem de ser atuais. É uma missão que cabe a todos, não só aos políticos, mas também aos pais e professores e à comunicação social. Os filósofos iluministas estariam hoje boquiabertos com a existência de lideranças como as de Putin, Duterte, Trump ou Erdogan, bem como o peso crescente da extrema-direita na europa, como o demonstra o caso da senhora Le Pen em plena pátria do Iluminismo. Dizia Don Pedro a Don Hermógenes: “No nosso século, o progresso e a liberdade vão de mão dada. Em nenhum outro foram as luzes tão vivas, nem iluminaram tanto o futuro, graças à coragem dos novos filósofos”. Como é possível destruir tal herança?

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