A Poesia em Portimão ou um apontamento histórico sobre Cléo Marian

Em abril de 1947, teve lugar no Cine-Teatro de Portimão um espetáculo cultural que constou de alguns filmes documentários e de um recital de poesia sublimado por Cléo Marian. Foi com grande prazer que a assistência ouviu recitar poemas de Camões, João de Deus, Nicolau Tolentino, Bocage, Cândido Guerreiro, Júlio Dantas, Virgínia Victorino, Fernanda de Castro e da própria declamadora-poetisa. “O espetáculo agradou, especialmente nas partes do recital em que a talentosa intérprete dos grandes poetas da latinidade foi bastante aplaudida”, reforça o Comércio de Portimão de 16.04.1947.

O jornal brasileiro A Noite, na sua edição de 31 de outubro de 1947, noticiava as atuações pelos palcos de países como Portugal, Espanha, França e Suíça como triunfantes. Cléo Marian, que partira nesse ano do Rio de Janeiro, a fim de trazer à velha Europa muito da arte do Brasil, quer como cantora quer como declamadora, triunfou não só nosso país, onde realizou cerca de vinte recitais de canto e declamação, mas também em cidades como Madrid, Paris e Genebra nas quais, perante as mais cultas plateias, interpretou com um estilo muito próprio, os maiores poetas brasileiros e portugueses, italianos, espanhóis e sul-americanos.

Em Lisboa, numa récita de gala no teatro Nacional D. Maria II, integrada no programa de recepção aos oficiais cadetes e marinheiros do cruzador-escola «La Argentina» e na presença do ministro de Educação Nacional, corpo diplomático, figuras em destaque nas letras, nas artes e nas ciências e das melhores famílias da alta sociedade lisboeta, Cléo Marian comoveu com as súplicas de Inês de Castro n’ Os Lusíadas e com o desassossego das “Respostas na sombra” de Olavo Bilac. Foi arrebatadora com as palavras do algarvio Júlio Dantas, o nicaraguense Rubén Darío, o italiano Gabriele d’Annunzio e na voz da grande poetisa chilena Gabriela Mistral.

Em peso, a exigente plateia do Teatro Nacional aplau­diu Cléo Marian a quem a crítica, no dia seguinte, classificava como a mais expressiva intérprete da poesia latino-americana. O Diário de Noticias es­crevia: “a grande declamadora evidenciou marcante personali­dade na inteligente interpretação afirmada pela sensibilidade artística, dando expressivo relevo ao florilégio das poesias portuguesas, brasileiras que compunham o escolhido programa, aplaudida sem reservas pelo público que reconheceu estar em presença duma artista de grande valor”.

Foram dezoito os recitais que a artista brasileira deu no nosso país nas principais cidades, desde Portimão à Guarda, passando por, Beja, Évora, Setúbal, Coimbra, entre outras. A Emisso­ra Nacional, a cujos microfones poucas vezes se expressavam estrangeiros, convidou especialmente a declamadora para fazer-se ou­vir em dois recitais radiofónicos.

Como agradecimento por tudo quanto tinha feito em Portugal na divulgação da poe­sia junto de milhares de pessoas, e como recompensa pelo serviço prestado à cultura de Portugal, o ministro dos Negócios Estrangeiros, professor Caeiro da Mata, propôs Cléo Marian para a Ordem das Palmas da Instrução, uma das mais al­tas láureas, só concedidas a in­telectuais de méritos provados.

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