Sagres

Assinalando a criação do novo blog do ICIA, recuperamos a belíssima crónica de Lídia Jorge publicada no nº 1 da Revista Atlântica de Cultura Ibero-americana (2004). Fotografia de João Mariano

"Por que razão evitar a palavra outrora? _Outrora não havia o ruído das estradas, os céus só de muito longe a longe eram riscados pelas rotas dos aviões, e as partidas eram feitas em grandes navios, com lenços brancos a acenar e longos mugidos que amarravam para sempre os corações amantes às pedras dos cais. Os soutiens das mulheres eram agudos como se fossem funis, e os sapatos dos homens rangiam à medida das suas passadas como se fossem de tábua. A música que se escutava era ainda predominantemente executada em presença, os lábios e os dedos próximos, a vibrarem contra os instrumentos, objectos então familiares nas nossas vidas. Hotel era ainda uma realidade mágica que só tinha consistência nos filmes americanos, e o telefone, um objecto de luxo que distinguia os senhores das vilas. Transpor distâncias geográficas, breves que fossem, era ainda uma tarefa assinalável. _ Muita coisa, pouca coisa? Só o suficiente para dizer que, se penso em Sagres, é em Sagres desse outrora que penso.

Regressando lá, a esse outro tempo, em que se ouvia o pêndulo dos relógios das torres marcarem as horas íntimas de cada um, Sagres de outrora não se me afigura um cabo nem um promontório, mas apenas uma luzinha brilhando no escuro da penumbra imensa em que se transformou o passado, a luz intermitente dum farol que a espaços riscava a noite, quando a noite ainda podia ser escura. Porque de dia a terra esmorecia desse lado, as formas das casas iam-se perdendo ao longe, confundindo-se com a rala vegetação da paisagem, e quando a lonjura quebrava a linha perceptível e se transformava ela mesma no próprio fio do horizonte, aí a distância tornava-se lilás, e desaparecia de encontro ao mar azul que por sua vez também desaparecia no céu anilado. Sagres encontrava-se lá, um espaço imerso nesse lugar vago, onde a Terra acabava diante da nossa vista e desaparecia como uma espécie de tira de fumo. Quando o Outono chegava, a distância transformava-se em alguma coisa mais palpável, passava a ser uma proveniência, uma direcção precisa, um ponto cardeal de onde sopravam os ventos que fustigavam as árvores. Era o local de onde provinham as chuvas arrebatadas de Novembro, as que entravam pela chaminé e aspergiam a toalha da mesa de gotas e salpicos, atingiam as nossas camas duma humidade ainda quente. Mas Sagres, o verdadeiro Sagres de outrora, era muito mais do que uma barra esfumada ou as intempéries que de lá provinham.

Sagres era uma pátria nocturna, uma espécie de olho vigilante na noite que vinha ter connosco à varanda, quando subir as escadas durante a noite, para ver as estrelas ou distinguir o rebordo das nuvens, se transformava numa aventura nas nossas parcas vidas. Também a Geografia ainda era uma abstracção, mas o que a nossa mãe contava é que se caminhássemos por cima do mar, a partir daquela luz, e seguíssemos sempre em frente, se nos imaginássemos permanentemente a andar por cima das ondas, apesar das nossas pernas curtas, dentro de dois, três anos, chegaríamos à América do Norte. Se caminhássemos para sul iríamos ter a África, se nos dirigíssemos para Sudoeste - e ela indicava essa direcção imprecisa com o seu braço, que nos parecia gigante – então chegaríamos aos países da América do Sul. Demoraríamos muito, sofreríamos muito, no entanto seria bom, pois se lá chegássemos, em todos esses lugares, encontraríamos parentes.

É possível que essas cenas de explicação de geografia humana familiar acontecessem também de dia, mas a imagem desse Sagres de outrora, sempre a associo às explicações da noite. A nossa varanda abria-se exactamente a meio do Algarve. Mais próximo brilhava o farol do Cabo Carvoeiro, depois piscava aquele frouxo olho de Sagres, tremido, longínquo. Quanto mais tremido e mais distante, mais doloroso, mais potente, como se o seu braço de luz fizesse a ponte entre nós que havíamos ficado e todos esses que haviam partido. Não o nego, aquela luz nas noites de outrora era um lugar que separava e unia a nossa gente. Gente sem passado nem futuros assinaláveis, gente que era apenas um só corpo desunido, disperso pelo mundo. A verdade é que ninguém dali havia partido, àquele lugar ninguém iria chegar, e no entanto, no relato escuro da varanda, era como se tudo ali tivesse acontecido, como se Lisboa, seus cais e aeroporto, onde as partidas reais se davam, não existissem em lugar nenhum. A partir da nossa varanda, aquele lugar sudoeste parecia ser o único ponto cardeal das nossas vidas. Mas, logo na primeira curva da infância, viria a História e viriam os mitos.

Primeiro, a História. As coisas passaram-se assim _ A professora do Liceu mandou apagar da cabeça todas as histórias de luzes e varandas, para nos contar como certo dia, quinhentos anos antes, um príncipe português, casto e visionário, tinha resolvido abandonar a corte, armado de seus cavalos e escudeiros, para vir assentar casa e villa no Sul de Portugal, e aqui dar início aos Descobrimentos Marítimos. A professora parecia estar enamorada desse príncipe. Segundo a sua narrativa de fábula, o príncipe havia descoberto, ao atravessar o Algarve, em direcção do Norte de África, que o Promontório de Sagres, muito mais do que um rochedo, era uma grande mão aberta cujo dedo indicador estendido apontava para o futuro do Mar. Em sua bata branca de oficial impecável, a professora falava da villa, do príncipe, dos sábios italianos que ali tinham chegado para falarem da rota das estrelas, dos engenhos, dos barcos e dos mapas da pequena Terra Cógnita da época, e a mão aberta do Promontório de Sagres, mais do que um local de partida era um local de chegada que em simultâneo ligava o seu rochedo ao extremo Sul de África, à Índia, à China e ao Japão, ao cabo Horn, como se toda essa façanha de séculos tivesse jorrado da testa do Príncipe, prodigiosamente, segundo a mesma lei de simplicidade que movia o ponteiro da professora por cima do planisfério. A História tinha então a forma duma mulher enamorada. Sob o impulso daquela professora em estado de paixão, desenhámos Infantes Dom Henrique sentados nos rochedos, caravelas no seus ombros e ao seu colo, fizemos prosa e versos, houve exposições e prémios. Aquela mulher tinha razão - Sagres, segundo a sua História, não tinha nada a haver com a tira lilás que se avistava da varanda, nem com a luz intermitente que apontava para a distância do mundo que nos era contemporâneo. - Mas como disse, ainda haveria os mitos.

Aliás, de modos diferentes, eles nunca tinham estado ausentes. Talvez uma parte do afecto seja mito, talvez toda a memória também o seja. O que sabemos nós da construção do pensamento? Mas Mitos mitos, aqueles que resumem os sentidos da existência com a síntese dum alfinete afiado, esses começariam a ficar cada vez mais explícitos. Afinal, por alguma razão superior, Sagres se situava em terras de Portugal. O assunto era tão sibilino quanto resultava claro. - Por alguma razão de ordem teleológica, tão estranha à vontade humana quanto a chuva ou o trovão, tinha havido Sagres para que Portugal pudesse ter enviado primeiro as caravelas, depois as fundas naus sem fundo, com a Cruz de Cristo arvorada nas velas e a doutrina cristã escrita nos livros. O Império de Cristo havia tido sua cabeça em Portugal. Todo o Portugal, ponta extrema da Europa, afinal não passava duma lança de Fé chamada Sagres. É preciso lembrar que nesse tempo as raparigas usavam véus para entrarem nos templos do Senhor, os cabelos das suas cabeças ainda precisavam desse abafo contra os seus próprios males. A pouco e pouco, o Mito havia tomado conta das nossas vidas e, por isso, subir acima da varanda da nossa casa já não era subir acima da varanda da nossa casa para ver o céu à transparência. Um véu não era um véu. O simbólico havia-se instalado com sua poderosa corte de substância entre o real e o imaginado. Só os cegos iam a Sagres e nele viam um rochedo perigoso por onde todos os navios provenientes do Mediterrâneo e do Atlântico, na rota da Europa, tinham obrigatoriamente de passar. Só os cegos. Então, felizmente, fomos a Sagres. Ainda estávamos vivos e intactos.

Fomos, fazia vento, já o disse de outros modos. Éramos adolescentes. Tudo isso aconteceu outrora, quando as estradas ainda corriam às curvas entre veigas e outeiros, amarradas aos caprichos do terreno. Fomos. Chegámos lá depois duma tarde de viagem num carro que carburava mal. A distância que nos separava era curta, mas nós achávamos que por mais que andássemos nunca chegaríamos lá. E, de súbito, ali estávamos em pé, sobre as costas dum rochedo. Uma pedra gigantesca, uma escarpa nua, onde o vento assobiava como se nos quisesse arrebatar para outra parte. E, então, à medida que os redemoinhos nos levavam os cabelos, foi simples imaginar quantos enxovais por estrear se haviam misturado com a areia, quantas quilhas, quantos mastros, quantas sepulturas abertas nas ondas, para que a distância entre continentes, ao longo dos séculos, tivesse sido transposta. Foi possível compreender como por cada príncipe sonhador que a História oferece, sempre foram necessários exércitos incontáveis de outros homens, cujos nomes só estão escritos entre os grãos de areia onde ficaram seus desejos e seus ossos. Tudo isso foi entendido, durante essa primeira visita ao rochedo.

Mas foi preciso mais tempo, sobretudo mais densidade no tempo, para que eu mesma entendesse que em Sagres, como em toda a escarpa nua que se prolonga pelo Mar, existe o aceno que leva para longe o nómada das águas. Existe o inquieto, o curioso, o móvel, o trotamundos sem destino à vista, o inqualificável. Aquele que sente, na sua carne e no seu espírito, que à medida que se vai afastando da sua casa, mais se aproxima da verdadeira morada. E assim se sabe que sempre que se fala do espírito do Príncipe, seus cálculos astronómicos e seu Mapa-múndi de Fra Mauro, sempre se terá de falar daquele outro infante múltiplo, sem retrato, que habita na sombra do seu silêncio e se chama Humanidade. Era essa a palavra que eu desejaria ver escrita em letras gigantescas nas escarpas da futura Sagres. Em volta dos seu relógio de sol desenhado no chão, cujos ponteiros não falam, Humanidade. - Todos os que partiram, ou não partiram de lá, ao longo dos séculos, mereceriam essa homenagem. Os ignorados, aqueles cuja vida anónima encontra no enrolar e desenrolar das ondas a sua única metáfora, seriam esses o seu destinatário."

Lídia Jorge, "Sagres", in Revista Atlântica de Cultura Ibero-americana, nº 1, Portimão, ICIA, 2004

Publicada por João Ventura à(s) 11:1

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