O mar e os navios


"Absorto, ficava ali, horas seguidas, a observá-lo de cima, vendo-o agitar-se como um cavalo a sacudir as crinas, um prisioneiro a tentar libertar-se das algemas, um corpo a debater-se de alto a baixo contra uma sezão febril. Formavam-se grandes ondas azuis lá muito ao largo, sobre a pele encrespada das águas que se deixavam embalar pelas convulsões do mar. Vinham por ali fora em rolos sucessivos, descendo ao encontro da penedia solta da costa. Despenhavam-se logo depois contra ela, não já azuis mas brancas, como se feridas e rasgadas pelas rochas. E cobriam as pedras e o pouco areal que ainda ali restava do muito que as marés traziam de volta. Esse grande ser vivo do mundo, o maior de quantos habitam à superfície da terra, tinha aliás as cores que ele preferia: o dorso azul, a brancura do sal e da espuma quando o picavam os ventos ciclónicos, e sempre ele que se afiava por entre as fragas para invadir a praia. Além disso, havia os ruídos em baque da rebentação, a música cavada da água a erguer-se sobre si, a misturar-se com os sons da nortada que açoitava as árvores e a erva alta dos campos. E também as casas e as pessoas que corriam a saltitar para irem abrigar-se da tempestade. E ei-lo outra vez ali, o mar. Tão perto, tão alegre, vivo e canino a saudá-lo abanando a cauda e as orelhas, latindo-lhe não propriamente ao ouvido, mas na pele toda, e entrando-lhe no corpo, das unhas para os dedos, destes para as mãos e para as veias. O mar entrava e subia por ele acima até chegar ao interior da sua cabeça e espraiar-se em onda dentro dela. Nessa altura, compreendia que um homem pode perfeitamente trazer um mar em si, dentro da cabeça, ou nas veias e nas artérias, em todos os poros da pele, infiltrado nos ossos e nos mais obscuros labirintos do corpo. A isso chamava ele plenitude, a vida inteira dentro de si, o sal a pegar-se-lhe à pele, o corpo a sentir renascerem as velhas e esquecidas alegrias do sangue que nele girava, do sexo na sua função de prazer, das guelras abertas, dos pulmões a dilatarem-se, como se estivesse em expansão de dentro para fora de si. Não pode haver nada mais belo na vida do que abordar as cidades por via marítima. Os portos são braços abertos, redutos planos e recatados, com umas águas inofensivas e gratificantes, que logo nos fazem esquecer o tormento do enjoo, deixado ao largo. Entramos por ali dentro devagar, num movimento irreal de aproximação recíproca que vai pondo nítidas, minuto a minuto, primeiro as formas indistintas da paisagem, depois as cores mais fortes, por último o desenho em miniatura das ruas e das casas que se aclaram e acercam de nós, e como que invadem os nossos olhos por dentro. Vemos, só então, o que já sabíamos: o género humano somos nós e os outros, iguais em tudo nesse lado do mundo e do mar, em qualquer terra a que aportemos. Sabê-lo à chegada, num cais de desembarque, torna-nos mais urbanos, mais transparentes, eternos como o sal dos deuses, sendo nós tanto ou mais efémeros do que a contingência da nossa condição universal. Os naturais desses confins do mar esperam a acostagem dos navios à doca e o desembarque dos passageiros para nos lerem as linhas da mão e revelarem a nossa sina. É bom passarmos, pelo menos algumas vezes na nossa vida, pela condição de estrangeiros. Sabemos então que possuímos uma alma só nossa, comemos do que a terra nos dá e também dependemos dos outros quando entramos na sua morada. Eu, a bem dizer, de estrangeiro tenho praticamente tudo aquilo de que preciso. O sotaque carregado dos aprendizes e tradutores de línguas alheias, a curiosidade, a estranheza e o prazer deslumbrado com o sabor das comidas dos outros, os gestos frugais com que imito usos e costumes dos que esperam e se propõem receber-me excelentemente, com um orgulho mal disfarçado, nas suas casas de família.

Nunca perco uma oportunidade para lhes dar a ler a minha sina. Estendo-lhes ambas as palmas das mãos, fico logo a saber se vou ter saúde ou contrair alguma doença; se o destino me prepara mais alegrias do que amarguras no meu próximo futuro, e quanto tempo está previsto eu viver. Adoro ouvi-los dizer que me está reservada para breve uma linda história de amor, com a mulher mais bela do mundo; que terei uma vida plana, longa de oitenta e oito anos batidos, sem doenças nem dores, sem azares nem desgostos de maior; e que, no regresso de uma destas minhas contínuas viagens pelas cidades marítimas dos barcos, feliz como nunca fui, herdarei uma fortuna de um tio esquecido por toda a família; um tio velho, com a idade de um século, provavelmente já meio tonto das ideias, tio esse que, havia muitos e muitos anos, emigrara para o Japão, o Egipto, a Venezuela, a França, a América, vá-se lá saber mais para onde..." João de Melo, in Os Navios da Noite, Lisboa, Dom Quixote, 2016

Posts Em Destaque
Posts Recentes
Arquivo
Procurar por tags
Siga
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square