Gente de Montevideu


Lembro-me de um dia, em Montevideu, ter falhado a possibilidade de me cruzar com as personagens que Julio Cortázar e Adolfo Bioy Casares fizeram pernoitar, respectivamente, em La puerta condenada e em Un viaje ou el mago inmortal, num misterioso quarto de um hotel espectral cujo primeiro rumor me haveria de chegar, alguns anos mais tarde, através de uma crónica de Enrique Vila-Matas publicada numa edição da revista Atlântica. Se na ocasião tivesse, minimamente, suspeitado dos segredos que se escondiam naquele segundo andar onde viveu durante anos, até à sua morte, o poeta e filósofo Emilio Oribe, e onde, também, Jorge Luís Borges confessou ter-se hospedado e sofrido de insónias - "Lembro que fui para Montevidéu. Estava alojado no Hotel Cervantes e às vezes acordava as duas ou três da manhã..." [Alifano, Roberto, Borges, Biografia verbal. Barcelona: Plaza & Janés, 1988] -, talvez a curiosidade me tivesse levado a subir os quatro lances de escadas até ao segundo andar e batido à porta do quarto número 106 onde, talvez, o mais melancólico e irreverente dos escritores uruguaios Juan Carlos Onetti - se, como fez Mario Benedetti, se tivesse "dexilado" para reencontrar em Montevideu a cidade mítica de Santa Maria inventada no seu romance A vida breve -, me recebesse na cama onde nos últimos dias do seu exílio madrileno sempre recebia os amigos. Tivesse eu entrado no quarto 106 e Onetti aí estivesse, talvez ele me confessasse o seu arrependimento por não ter sabido corresponder ao amor de Idea Vilariño, também ela, como ele, poeta da melancolia e da saudade tão montevideana expressa num dos mais belos e dilacerantes ensaios poéticos sobre a despedida:"Ya no será / ya no / no viviremos juntos / no criaré a tu hijo / no coseré tu ropa / no te tendré de noche / no te besaré al irme. / Nunca sabrás quién fui / por qué me amaron otros. / No llegaré a saber por qué / ni cómo nunca ni si era de verdad / lo que dijiste que era / ni quién fuiste / ni qué fui para ti / ni cómo hubiera sido / vivir juntos / querernos / esperarnos / estar. / Ya no soy más que yo / para siempre y tú ya / no serás para mí / más que tú. / Ya no estás / en un día futuro / no sabré adónde vives / con quién / ni si te acuerdas. / No me abrazarás nunca / como esa noche / nunca. / No volveré a tocarte. / No te veré morir" ("Ya no", Poemas de amor, 1957). Desconhecendo, ainda, nessa altura, a ressonância amargurada destes dois amantes montevideanos, ladeei a fachada do edifício desocupado que antes fora o Hotel Cervantes - e que acolhe agora o Hotel Esplendor -, afastei-me desse lugar espectral de portas emparedadas, espelhos côncavos e de fantasmas que vivem em dimensões paralelas e caminhei até ao vizinho cinema Rex, detendo-me a observar uma janela do primeiro andar, onde o escritor e músico Felisberto Hernández escreveu os seus contos fantásticos, cujo final nunca se encontrava na última página, enquanto, sem que ele suspeitasse, a sua jovem mulher fazia de costureira durante o dia e, à noite, de espia ao serviço de Moscovo. Tendo falhado o aleph que o hotel Cervantes escondia, e pouco dado a enredos de espionagem, procurei uma Montevideu mais arejada, indo nos passos de Mario Benedetti pela rua Sarandí "como un desnudo, con esa desesperada desnudez de los sueños, cuando uno se pasea en calzoncillos por Sarandí y la gente lo festeja de vereda a vereda." (Benedetti, La tregua), e onde, na livraria Más Puro Verso, acolhida numa antiga óptica do século XIX, festejei a compra dos Poemas de amor de Idea Vilariño e, depois, como uma criança a quem foi oferecido um brinquedo há muito desejado, fui deambulando, sem pressa, pelos cafés resgatados da memória que foram lugares de encontro de intelectuais, escritores, artistas, como se a própria Sarandí fosse um grande café, lugar de hábitos metódicos e dos vaivéns casuais: o café Brasileiro, o café Las Missiones, o antigo Sorocabana - hoje reconvertido sob o nome Big Mamma - que foi poiso habitual de Benedetti, lugar de escrita e de tertúlia política e literária. Caminhei, depois, pela "Dieciocho", a grande avenida de Montevideu, perseguindo os passos de Benedetti: "Uno tiene la impressión de aquí todos nos conocemos. Caminar por 18 de Julio es como moverse por el patio de la casa familiar" (Benedetti, Andamios). Lembrei-me que se ficasse por ali até ao anoitecer, talvez me cruzasse com Mario Levrero no seu vai e vem de vertigem entre alfarrabistas que por ali existiam na mesma avenida onírica que nos haveria de revelar em La novela luminosa. De volta à Cidade Velha, fui observando, como o pintor montevideano Joaquin Torres-García, “os veículos, as praças, a geometria das casas alinhadas, e a árvore, o agente da polícia, os armazéns, e a estação de comboios” até parar na esquina de Ituzaingó e Sarandi, diante do Hotel Pyramides, onde residiu um tal Francois Ducasse, funcionário da embaixada francesa, pai de Isidore Ducasse, que sob o pseudónimo de Conde de Lautréamont escreveu os Cantos de Maldoror. Por detrás do Teatro Solís, descendo em direcção à Rambla, pareceu-me ver a sombra do fantasma de Lautréamont esgueirando-se entre os transeuntes que desciam em direcção ao Mar da Prata, mas o que encontrei foi, apenas, um modesto monumento branco em memória dos três escritores francófonos de Montevideu, Isidore Ducasse, Jules Laforgue e Jules Supervielle.

E já diante da linha de casario ribeirinho, também não vi indícios da conjura de poetas precocemente dadaístas e surrealistas encabeçados pelo falso morfinómano Julio Herrera y Reissig que, por volta de 1900, talvez inspirados por Lautréamont, prenunciaram o movimento modernista que agitou a Montevideu a partir de um minúsculo quarto erguido no terraço da casa dos seus pais, com vista para o Mar da Prata, que baptizaram como “Torre dos Panoramas”. Porque já ali não estava o cartaz que os poetas conjurados de 1900 colocaram junto à “Torre dos Panoramas” e que dizia: “proibida a passagem a uruguaios”, "en ese momento [também a mim] se me afirmó definitivamente la convicción: soy de este sitio, de esta ciudad" (Benedetti, La tregua) e encaminhei-me até a praia de Pocitos e, ali, iluminado pelo brilho metálico do Rio da Prata, com alma suspensa em memórias de leituras e milongas, fui observando aqueles passeantes montevideanos que "nacen junto a la rambla y en la rambla se mueren / y van al paraíso / y claro / el paraíso es también una rambla." (Benedetti, Los Pitucos).

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