Professor, posso atender...?


Reboco sem correrias nem esforço um troley de equipamentos e saberes: projetor, portátil, cabos, adaptadores e extensões, livros e dossiers. Um boby de viagem para poupar a cervical ao peso do saber e da autonomia didática. Percorro os corredores de um aeroporto de alunos que chegam deslumbrados, ficam desiludidos e partem muito cansados e resignados, embora com alegria de umas férias muito grandes e expectativas de areia e vento. Muitas vezes me lembro do funcionário cansado do Ramos Rosa. E assim me dirijo para o Gate F4.

Na aula desta manhã de quase verão, apenas as alunas que não se entregam ao desporto. Os colegas festejam o final do 2.º período num jogo de andebol. Fazem parte de uma estranha turma de futuros profissionais de salvamento e de futuros técnicos de um Turismo que sempre nos há-de salvar. Juntar estes dois cursos numa única turma foi um casamento infeliz, repetem os professores nos conselhos de turma dos corredores.

E o que fazer na aula de hoje? De que maneira atraente posso eu vestir uma epopeia? Como posso servir Camões sem ofender o meu amor pela poesia? Como posso ser um funcionário cumpridor? Por que já sei que não me sentirei orgulhoso de ter cumprido o meu dever?

Sem sumários para começar, que isso é coisa para fazer em casa, já que os livros de ponto são defuntos saudosos e estes alunos não carregam cadernos, apontei para o Promontório Sagrado.

É confortável lecionar no barlavento Algarvio quando temos de falar dos Descobrimentos. Fortalecemos o discurso com lugares e nomes vizinhos e familiares: Gil Eanes, Lagos, Infante, Sagres, caravelas, Monchique.

A contragosto, já que preferiam ser claque dos colegas andebolistas, as alunas foram magnetizadas pelas imagens que escolhi projetar. Um trabalho notável de promoção do turismo cultural de lugares e monumentos que a Direção Regional de Cultura tem realizado e o qual me sinto felizmente obrigado a mostrar aos alunos.

Sagres faz-nos sonhar e a desejar ser melhores. Carrega-nos na alma uma responsabilidade maior de fazer mais e bem feito. É um desígnio de pedra que nos aponta sempre a nossa vocação sul-atlântica.

E enquanto o Infante inquieto olhava as estrelas na noite à procura do caminho, a Daniela, n.º 6, interrompe e diz:

- Professor a minha mãe está-me a ligar, posso atender?

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